REFERÊNCIAS
Eu acredito que um fator decisivo para o rumo de uma vida adulta é o tipo de referência que temos na nossa infância. E é evidente que a principal referência de uma criança são os pais que ela tem. Em princípio, é a eles que elas vão admirar e é deles que tiram os modelos de comportamento. Claro que as coisas não são simplesmente deterministas. Boas referências não significam uma formação de um adulto digno, assim como más referências não significam a formação de um canalha necessariamente.
Muitas vezes o processo de negação e inversão pode levar ao caminho contrário das referências que se têm. Isso é um processo edipiano, mas não quer me alongar e me perder em análises psicanalíticas, até mesmo porque não domino o assunto e estou escrevendo um texto sobre as minhas impressões e o que penso sobre isso. E quero falar da superação das referências.
Eu cresci cercado de referências limitadas. E vi meus irmãos crescerem assim. E os meus primos. Convivi com valores e limitações que poderiam ter me tornado alguém muito diferente de quem sou. Não necessariamente que as outras pessoas da minha família que tenham seguido um caminho mais óbvio sejam piores ou inferiores, mas tenho certeza de que não atingiram aquilo que almejaram. E sei que muitos deles são honestos e dignos. São trabalhadores e muito respeitáveis. Entretanto, também sei que não são pessoas realizadas e não têm o tipo de vida que gostariam de ter. Elas não conseguiram superar as referências que tiveram. Eu consegui e sei muito bem a razão disso.
No meio de um verdadeiro deserto de ignorância e pobreza de espírito havia um oásis. Esse oásis era o meu pai. Meu pai era uma pessoa muito lutadora. Teve muitas dificuldades na vida, lutou e conseguir crescer. Conseguiu dar uma vida tranqüila aos seus filhos. Embora só tivesse o primeiro grau completo, era um autodidata. Cresci numa casa chia de livros. Ele gostava de ler. Aos 8 anos de idade eu tinha acesso a Machado de Assis, Érico Veríssimo e Jorge Amado (e muitos outros autores, mas paro por aqui). Meu pai dava um valor extremo para a educação e a cultura, ao contrário de minha mãe que nunca leu um livro inteiro na vida mesmo tendo acesso a tudo isso dentro de casa. Meu pai queria que os filhos estudassem e tivessem uma boa educação. Não queria que começássemos a vida trabalhando e abandonando os estudos, ou os tornando secundários, se ele podia nos possibilitar o que fosse necessário para que crescêssemos. O resto da minha família, ao contrário, não tinha essas referências em casa. Tinham um ambiente de pobreza, de falta de educação e de valores de pessoas muito desiludidas que precisavam lutar para sobreviver e não tinham tempo a perder com estudos que "não as levariam alugar algum". E fico triste ao ver que mesmo dentro da minha casa a referência do meu pai não frutificou como deveria. Meu irmão mais velho foi pela negação e meu irmão mais novo perdeu o nosso pai quando ainda tinha 10 anos de idade. as referências dele foram outras, bem mais limitadas.
Eu tinha 14 anos quando o meu pai morreu. Quando ele se foi eu perdi a única pessoa que entendia as minhas ambições e que acreditava nas coisas que eu poderia realizar. Depois disso, a minha vida se tornou um luta dentro de casa na adolescência, muitas vezes sem suporte, até mesmo para fazer o vestibular.
Lutar contra os valores que nos cercam é muito difícil. A tendência é que apenas venhamos a reproduzir as referências que tivemos. Eu sempre quis e tentei superar. E tentei superar a referência positiva, mesmo vacilando algumas vezes e tropeçando várias outras, sempre quis ser alguém que realizasse mais e conseguisse romper com o mundo viciado e doente no qual cresci. E tenho me esforçado a vida toda pra isso.
Hoje em dia já realizei muitas coisas. Ainda realizarei mais e lutarei para alçar vôos cada vez mais altos. E o que me move não é a realização pessoal... O que me move é o mesmo que motiva este texto:
Minha vida inteira luto para ser alguém de quem meu pai pudesse ter orgulho e sofro muito pra nunca poder ter a certeza disso...
Escrito por Aureliano Buendia às 15h07
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