TEMPO, MANO VELHO, FALTA UM TANTO AINDA, EU SEI, PRA VOCÊ CORRER MACIO
Ver o tempo passar e aumentar a sua velocidade na medida em que vou envelhecendo é algo que tem me perturbado demais nos últimos anos da minha vida. Pensando nisso cheguei à conclusão de que talvez o tempo nunca tenha corrido macio na minha vida e nem na vida de muitas pessoas como eu por um motivo simples: nascemos num momento especial. Esse momento especial é muito específico, muito mais específico do que o momento histórico que vivemos. São apenas dois ou três anos que possibilitaram que pessoas como eu tivessem a oportunidade de viver o que viveram: um grande vida perdida num mundo de transição.
Estou próximo de completar 29 anos. Diria eu que quem está entre os 27 e os 31 anos de idade provavelmente compartilhe da mesma sensação que eu. Restrinjo assim porque uma diferença maior que essa tem um sginificado muito maior na infância e na adolescência que faz com que muitas das experiências tenham significados extremamente diferentes para cada um. Somos de uma idade que permitiu que vivêssemos as grandes transforamações do final do século XX sem termos idade maturidade suficiente para interferire e ao mesmo tempo sem termos idade de menos para não termos consciência do que estava se passando. Cito abaixo alguns desses acontecimentos:
Conseguimos lembrar das copa de 82 e 86: tivemos como ter consiência da grande seleção que o Brasil possuía, sofrer com os gols de Paolo Rossi, com a eliminação contra a França em 86 guardar a lembrança da sensação de frustração que se abateu no país com as derrotas;
Diretas já: estávamos já com mais 7 anos. Eu vi e lembro bem até hoje da sessão ao vivo do Colégiao Eleitoral que elegeu Tancredo Neves. Lembro da comemoração da minha família brizolista pelo fim da ditadura, da comoção nacional pela morte de Tancredo;
Grêmio campeão do mundo em 83: sem comentários. Foi a maior alegria da minha até então curta vida de 7 anos e meio de idade;
Internet: quando a internet chegou ao Brasil eu já tinha 18 anos. Não era velho demais pra não conseguir acompanhar, mas ao mesmo tempo não tive a oportunidade de crescer habituado com o uso da rede, como puderam pessoas apenas 4 anos mais novas que eu e que hoje estão com 25 anos;
Queda do muro de Berlim e Fim da URSS: entre os 12 e os 16 nanos eu vi ruir o mundo socialista. Pra mim foi um choque; desde as olímpiadas de 1980 eu tinha um fascìnio inexplicável pelos países comunistas. Sempre simpatizei com eles e torci loucamente pela vitória da URSS contra os EUA nas olímpíadas de Seul na final do basquete. O significado de ver ao vivo no Fantástico a derrubada do muro em 89 e a queda da URSS em 92 em plantões de Globo no meio da tarde foi grande pra mim. Meu ideais de adolescente revoltado pareciam estar ruindo junto com aquelas imagens;
Eleições presidencias de 89 e o impeachment de Collor: quando Collor foi eleito eu tinha 13 anos. Militei feito um maluco pela candidatura de Brizola e acompanhei a comoção com derrota aqui no RS. Em 92 eu já tinha 16 anos, era do Grêmio Estudantil e liderava junto com alguns colegas a movimentação pró-impeachment nas escolas públicas de Porto Alegre. Presenciei a falta de politização dos hoje msitificados cara-pintadas. Eu fui um deles;
AIDS: Isso é o que chamo de sorte. Sou de uma geração que teve tempo de aprender a usar camisinha e a se acostumar com a AIDS. A geração do meu irmão mais velho, que hoje tem 35 anos, ainda transava sem camisinha na adolescência e pra eles ainda era normal ter DSTs. Ficamos exatamente no meio do caminho entre uma geração que não usava camisinha e uma geração que não viu a AIDS se proliferar e a trata com algo que só acontece com os outros.
Esses são alguns fatos que tornaram o meu tempo nem um pouco macio. Sempre houve coisas a correr atrás, sempre houve decpeções. Um momento estranho. O sufuciente pra que pessoas apenas 3 anos mais novas que eu não tenham tido todas essas vivências. É a vida...
Escrito por Aureliano Buendia às 14h30
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