TERRI SCHIAVO
Ontem morreu a pivô de uma batalha judicial que promoveu a maior discussão sobre eutanásia de que tive notícias nos meus quase 29 anos de vida. Depois de 15 anos em vida vegetativa, com o córtex cerebral inutilizad,o foi autorizado o desligamento do aparelho que a alimentava. Esse é o detalhe que eu considero mais cruel: ela morreu de fome.
Particularmente, sou favorável à eutanásia. Eu preferiria morrer a viver dependente de aparelhos ou tetraplégico, seja como fosse. Entretanto, morrer de fome não seria a minha escolha. Dezoito especialistas afirmaram que Terri Schiavo só tinha reflexos e não possuía mais nenhuma capacidade de sentir dor. Pode até ser verdade, mas ter de aceitar que a hipocrisia de uma sociedade que mata seres humanos que sentem dor, alguns comprovadamente inocentes, com injeções letais e choques elétricos terríveis precise do recurso de levar à agonia uma pessoa em estado vegetativo, quando tudo poderia ser muito mais rápido e menos sofrido para todos, é incompreensível.
Eu poderia muito bem fazer o que muita gente faz e vociferar contra a campanha pela manutenção da vida de Terri. Mas não posso fazer isso. Fico imaginando como eu me sentiria, o desespero que tomaria conta de mim se eu fosse o pai dela. Nessas horas não há racionalidade que funcione e somente quem já viveu a agonia de perder lentamente um ente muito querido, como eu ao ver meu pai definhar, pode compreender como somos capazes de pensar que faríamos qualquer coisa, por mais egoísta que fosse, pra manter aquela pessoa viva e perto de nós, não importando a dor que ela estivesse sentindo. Não cobro racionalidade dos pais dela, que a criaram e viram a vida que geraram ser transformada quase num vegetal. Acho extremamente natural e compreensível.
Quanto ao uso político do fato, da disputa em conservadores e liberais, da eterna dicussão entre fé e ciência, creio que foi indevido. Ao menos serviu pra escancarar as contradições de uma sociedade completamente hipócrita. E falo do nosso mundo ocidental e cristão, não apenas dos EUA. Bem ou mal, aqui no Brasil nem mesmo seria possível cogitar a hipótese de desligar os aparelhos. E vivemos num país onde o aborto ainda é tratado como um tabu enquanto milhares de mulheres o praticam das formas mais inseguras e arriscadas possíveis. Hipocrisia pura, tanto do Partido Republicano quanto da Igreja ou mesmo de muitas das pessoas que vociferam princípios religiosos que só são seguidos quando lhes interessa. É da natureza humana.
Por fim, deixo registrado aos meu amigos: se um dia eu estiver nas mesmas condições de Terri Schiavo, ou agonizando de forma irreversível, eu quero sofrer eutanásia. (tenho certeza que minha família lutaria até o fim pra que isso não acontecesse, independente da minha vontade). E espero que um dia esse tema possa ser tratado de forma menos passional
É o que eu penso.
Escrito por Aureliano Buendia às 09h17
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