Cem Anos de Solidão


FAROESTE CABOCLO

Se um alienígena chegasse ao Brasil, sem ter a mínima idéia de quem foi Renato Russo, do sucesso de Faroeste Caboclo e do verdadeiro culto à música nos últimos 25 anos, e fosse levado ao cinema para estréia do filme, ainda assim a narrativa seria muito bem compreendida. Este é o grande mérito do filme de René Sampaio: em momento algum a narrativa depende da música para funcionar.

Tudo indicava que o filme poderia resultar numa "bomba": atriz da "malhação", expectativa exagerada. Felizmente, o filme não decepciona e, mais que isso, impressiona pela seriedade, pela verossimilhança da trama e pelas grandes interpretações dos protagonistas.

Como em todas as adaptações, cada fã da obra original tinha sua versão da história, seus cenários imaginados, seus desfechos favoritos.  O diretor obviamente tinha a sua e a faz funcionar de forma eficiente e bem executada. A escolha da narrativa não-linear e uso de flash-backs tornou a história menos previsível e a tornou surpreendente. A direção de arte e a trilha sonora são quase impecáveis. Infelizmente, o diretor foi obrigado a fazer escolhas difíceis para eliminar trechos da narrativa original.  Alguns personagens fazem falta, mas essas escolhas em nada prejudicaram o bom andamento da história.

Em vez investir na versão espetacularizada da biografia de João de Santo Cristo, Faroeste Caboclo investiu no retrato da sociedade brasileira dos estertores da ditadura e das primeiras décadas de Brasília. Pobreza, violência, racismo, corrupção e falta de dignidade foram temas que emprestaram à narrativa densidade, que deram sentido a uma história de amor quase inverossímil, mas que envolveu e convenceu todos os espectadores. A profunda crítica social não-panfletária faz da obre de René Sampaio um marco dos retratos da conturbada e preconceituosa sociedade brasileira dos anos 1970 e 1980.

Fabrício Boliveira interpretou o João de Santo Cristo mais convicente possível, como se cada gesto, cada movimento, cada sentimento e cada suspiro do personagem fossem reais. Foi o verdadeirao antiherói em uma interpretação inesquecível.

Faroeste cabloco superou todas as minhas expectativas, e acredito que poderá superar as de todos vocês.

 

ALERTA DE SPOILER

Nesses 26 anos entre o lançamento da música e o do filme, muitos fãs da Legião discutiram indefinidamente como morreria Maria Lúcia. De um lado, os que, como eu, acreditavam que João de Santo Cristo a matava; de outro lado, os que acreditavam que Maria Lúcia suicidava-se após a morte de João em função do arrependimento e da culpa por tê-lo traído. Eis que o diretor René Sampaio me surpreende faz de Jeremias o assassino de Maria Lúcia. Um final que eu nunca cogitei. Parabéns ao diretor.

 

 

 

 



Escrito por Aureliano Buendia às 17h29
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