Cem Anos de Solidão


16/01/2012


TRISTE TANGO DE DESPEDIDA

 

Chegou o dia da partida. Hoje, quando meu voo decolar e sobrevoar a iluminada noite de Montevideo-bruscamente interrompida pela imensidão do Rio Prata-, partirei sem data para voltar à cidade pela qual me apaixonei. Deixarei para trás uma intensa relação de amor e de descompasso com as ruas, os cheiros e as paisagens da capital uruguaia.

 

Não mais caminharei despretensiosamente pelas ruas da Cidade Velha nos horário de almoço. Não contemplarei o Palacio Salvo a quilômetros de distância como meu ponto de referência para a chegada no trabalho. Não irei mais à barbearia de sempre. Não caminharei mais pelas ruas do centro. Não encontrarei mais os ensaios de camdombe pelas ruas, mesmo quando não os procurava. Não retornarei mais ao mesmo lar nos horários de almoço.

 

Não irei a pé ao Shopping Punta Carretas, não janterei mais nos restaruantes da Herrera, não tomarei sorvete no Fredo, não visitarei mais o El italiano.

 

Não mais visitarei o Cine Casablanca nem o Cine Hoyts. Não visitarei mais a cinemateca. Não mais irei ao Teatro Solis.

 

Não caminharei pelas ruas de Carrasco e de Arocena. Não visitarei mais a Praça da Armada. Não passearei pelos caminhos do Prado. Não janterei no Hemingway, no La Otra, no Francis, no El Fogon. Não almoçarei mais no Mercado del Puerto. Não irei mais ao Estádio Centenário.

 

Não conviverei diariamente com a Rambla Montevideana, com suas paisagens, com as pessoas que lá se encontram todos os dias, com o pôr-do-sol no farol de Punta Carretas e com o nascer do sol no Pocitos. Não verei mais a lua brilhas espelhada sobre o Prata e banhar a vista da cidade de beleza incomparável. Não sentirei mais o frio úmido do inverno.

Hoje, quando meu voo se afastar das luzes da cidade, não terei mais a obrigação de voltar

 

Será que não farei nada disso?

 

Eu vou embora de Montevideo, mas Montevideo não sairá de mim. Nunca.

 

Yo me encariñe de ti, Montevideo!

 

Adeus, cidade da minha vida, adeus cidade dos meus sonhos e das minhas aspirações. Um dia voltarei ao teu regaço e espero que me receba de braços abertos.

 

Escrito por Aureliano Buendia às 13h14
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10/01/2012


DESMONTAGEM

Amanhã começa o processo de desmontagem do lugar onde vivi nos últimos dois anos. Até agora, parece que não me dei conta de que, amanhã à noite, já não existirá mais o cenário que construí enquanto vivi aqui e que constituiu minha zona de conforto. Aliás, neste momento ainda é minha zona de conforto. Não sei qual será minha reação quando vir concretizada a decisão que tomei, ainda no início de 2011, de voltar para o Planalto Central. Possivelmente, se bem me conheço, presenciar o desmonte da parte mais feliz da minha vida em Mointevidéu vai me fazer chorar copiosamente.

 

Posso afirmar que Montevidéu e ,especificamente, meu apartamento foram minha casa. Aqui me senti acolhido, aqui me senti confortável, aqui tive tempo para colocar a vida e os pensamentos em perspectiva, de forma fazer uma escolha que indica muito mais minha preocupações e meus planos para o futuro do que qualquer sentimento de desconforto com a cidade e com o lugar ao qual me acostumei a relacionar com Lar (assim mesmo, em letra maiúscula).

 

Meus quadros serão tirados da parede, meus livros serão encaixotados,  minha coleção de bonecos da Turma do Chaves será guardada e, junto com eles, minhas lembranças viajarão metade do continente para me acomapanhar na nova jornada.

 

É assustador perceber que, mesmo desejando voltar ao Brasil, meus vínculos não terão sido desfeitos até o último segundo e, quem sabe, não sejam desfeitos por um longo tempo. Resta-me suportar a dor da mudança e aproveitar o futuro promissor, se tudo correr bem.

Escrito por Aureliano Buendia às 23h56
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